alphonsus-guimaraens Biografia de Alphonsus Guimaraens - Livros para Todos

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Alphonsus GuimaraensMineiro de Ouro Preto, Afonso Henriques da Costa Guimarães adotou o nome poético de Alphonsus de Guimaraens por acha-lo mais musical e, por essa razão, combinar melhor com a proposta simbolista da musicalidade dos versos. Aos dezesseis anos ele se apaixonou por sua prima Constança, filha do autor romântico Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura). Com a morte prematura de Constança (14 anos), Alphonsus de Guimaraens passa a escrever poemas simbolistas tematizando a noiva morta e uma autocomiseração bastante intensa. Além dessas temáticas, fez muitos poemas religiosos em homenagem a Nossa Senhora, figura religiosa que substitui a paixão concreta, que transcendentaliza a mulher amada morta.

 

 

Principais Obras

  • Septenário das Dores de Nossa Senhora (1889) – quarenta e nove poemas divididos em grupos de sete, homenageando cada uma das sete dores que Nossa Senhora teria sentido ao longo de sua vida.

  • Dona Mística (1899)

  • Kiriale (1902)

“Ossea Mea” (Meus Ossos ou Meu esqueleto), poema transcrito a seguir, exemplifica parte da poesia de Alphonsus de Guimaraens porque apresenta uma visão do sobrenatural, de uma realidade mística e porque mostra que o poeta vê muito além das aparências do mundo real. É interessante você observar o vocabulário claramente simbolista e a sinestesia que domina quase todos os versos.

OSSEA MEA

Mão de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Pairando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar, mas que suplica.

Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que antes os altares sacrifica;
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mãos cuja sombra nos meus olhos fica ...

Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas...

Mãos de esperança para as almas loucas,
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...

As duas estrofes seguintes fazem parte do poema “A Catedral” em que Alphonsus de Guimaraens “descreve” uma catedral toda iluminada pelo sol e que, aos poucos, vai tomando cores escuras. O estribilho do poema são os sinos tocando a autocomiseração do poeta.

A CATEDRAL

Entre as brumas ao longe surge a aurora,

O hialino orvalho aos poucos se evapora,

Agoniza o arrebol.

A catedral ebúrnea do meu sonho

Aparece na paz do céu risonho

Toda branca de sol


E o sino canta em lúgubres responsus:

Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!

(...)

O céu é todo trevas; o vento uiva.

Do relâmpago a cabeleira ruiva

Vem açoitar o rosto meu.

E a catedral ebúrnea do meu sonho

Afunda-se no caos do céu medonho

Como um astro que já morreu.

A obra poética de Alphonsus de Guimarães bate somente em três teclas: morte da amada, pena de si mesmo e religiosidade, porém, existem algumas exceções como o poema “Cabeça de Corvo” em que o poeta tematiza o próprio ato de escrever (metalinguagem). O tom do poema é de penumbra e de vaguidade próprias do Simbolismo, e lembra o autor romântico norte-americano Edgard Allan Poe em “The Raven” (O Corvo). Aliás, esse escritor americano é tido como o precursor do Simbolismo.

CABEÇA DE CORVO

Na mesa, quando em meio à noite lenta

Escrevo antes que o sono me adormeça,

Tenho o negro tinteiro que a cabeça

De um corvo representa.


A contempla-lo mudamente fico

E numa dor atroz mais me concentro:

E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,

Meto-lhe a pena pela goela adentro.


E, solitariamente, pouco a pouco,

Do bojo tiro a pena rasa em tinta ...

E a minha mão, que treme toda, pinta

Versos próprios de um louco.


E o aberto olhar vidrado da funesta

Ave que representa o meu tinteiro,

Vai-me seguindo a mão, que corre lesta,

Toda a tremer pelo papel inteiro.

Dizem-me todos que atirar eu devo

Trevas em fora este agourento corvo

Pois dele sangra o desespero torvo

Destes versos que escrevo.

O poema seguinte – “Ismália” – é certamente um dos mais populares de Alphonsus de Guimaraens e tematiza a loucura como uma forma de executar o que a louca mulher deseja: ir para a lua; então, ao ver o astro noturno refletido no mar, atira-se nele e ... morre.

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar ...
Viu uma lua no céu.
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar ...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar ...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar ...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar ...

E como um anjo pendeu
As asas para voar ...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar ...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par ...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar ...


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