Biografias > Clarice Lispector
Natural de Tchetchelnik, Ucrânia, nasceu em 1925. Tinha apenas dois meses de idade quando chegou ao Brasil em companhia dos pais, fixando-se no Recife, onde passou a infância. Aos 12 anos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, cidade na qual faleceu em 1977. Após formar-se em Direito, começou a colaborar em jornais cariocas, tornando-se redatora. Casou com um diplomata de carreira, motivo que a fez viver fora do Brasil durante vários anos.
Principais Obras
- Perto do Coração Selvagem (1943 – romance)
- O Lustre (1946 – romance)
- A Cidade Sitiada (1949 – romance)
- Laços de Família (1960 – contos)
- A Legião Estrangeira (1964 – contos)
- A Paixão Segundo G.H. (1964 – romance)
- Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres (1969 – romance)
- A Hora da Estrela (1977 – romance)
- Um Sopro de Vida (1978 – contos)
“Os meus livros não se preocupam com os fatos em si, porque, para mim, o importante é a repercussão dos fatos no indivíduo.” Essas palavras de Clarice Lispector explicam o que acontece na obra que, junto com a de Guimarães Rosa, constituiu-se no que de melhor se escreveu no Brasil da Terceira Geração Modernista.
Seus personagens, representantes da situação alienada dos indivíduos das grandes cidades, geralmente são tensos e inadaptados a um mundo repetitivo e inautêntico, que os despersonaliza. Os narradores que aparecem em usa obra estão sempre contestando a linguagem literária padronizada. Aqui, um personagem de Um Sopro de Vida fala pelo autor: “Eu queria escrever um livro. Mas onde estão as palavras? Esgotaram-se os significados. Como surdos e mudos, comunicamo-nos com as mãos.”
Mais do que esses dois aspectos mencionados, predomina na obra de Clarice Lispector a introspecção psicológica. Nela, rompe-se a narrativa referencial, isto é, ligada a fatos e acontecimentos. O que existe é uma narrativa interiorizada, centrada em um momento de vivência da personagem (ou do narrador). É possível até que um acontecimento exterior desencadeie o fluxo da consciência: um fato exterior pode liberar idéias que vão até o inconsciente do personagem e daí decorre todo um mundo literário complexo, metafórico, interiorizado.
Afonso Romano de Sant’Ana, em seu livro Análise Estrutural do Romance Brasileiro, assim explica o procedimento da narrativa introspectiva de Clarice Lispector:
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No conto “Amor”, publicado em Laços de Família, a personagem Joana vive um cotidiano comum de mãe, esposa e dona-de-casa. Joana parece feliz nesse triângulo de funções preestabelecidas pelo sistema social vigente à mulher. Em um dia qualquer, Joana vai de ônibus ao supermercado. De dentro desse veículo, de repente, ela vê, na rua, um cego mascando chiclete. Essa visão (epifania) a desestabiliza e a faz empreender uma viagem dentro de si mesma, obrigando-a a questionar-se acerca da sua existência como mãe, esposa e dona-de-casa.
Em A Paixão Segundo G.H., a personagem-narradora G.H. está em seu apartamento tomando café, como faz todos os dias. Dirige-se ao quarto da empregada que deixara o emprego. Lá, vê subitamente uma barata saindo do armário. Esse acontecimento (epifania) provoca-lhe uma náusea impressionante, mas, ao mesmo tempo, torna-se o elemento motivador de uma longa e difícil análise da sua própria existência sempre muito acomodada.
Fragmento:
O que era pior: agora eu ia ter que comer a barata mas sem a ajuda de exaltação anterior, a exaltação que teria agido em mim como uma hipnose; eu havia vomitado a exaltação. E inesperadamente, depois da revolução que é vomitar, eu me sentia fisicamente simples como uma menina. Teria que ser assim (...) Eu não queria pensar mas sabia. Tinha medo de sentir na boca aquilo que estava sentido, tinha medo de passar a mão pelos lábios e perceber vestígios. E tinha medo de olhar para a barata – que agora devia ter menos massa branca sob o dorso opaco. |
Em A Hora da Estrela o narrador Rodrigo S.M., uma das personagens centrais do romance, discute o ato de escrever e as razões por que escreve. Diz que tem que escrever senão estoura.
Sua personagem é Macabea, reduzida ao apelido de Maca, uma nordestina de Alagoas, criada pela tia, que mora na rua Acre, no Rio de Janeiro, junto com quatro moças e trabalha como datilógrafa. Macabea é a síntese ou o excremento de toda a situação social que faz de seres humanos meros objetos sem discurso, sem objetivo, sem via. Maca não sabe quem é, nem o que é felicidade. Nem sabe nada porque nada sabe dizer. Não tem discurso para dizer o que sente, então não sente nada. Alimenta-se de sanduíche, passa suas horas de “folga” escutando Rádio Relógio (o locutor diz a hora exata de minuto em minuto) e colecionando retratos de artistas (ela sonha ser Marilyn Monroe). Acha um namorado – Olímpico de Jesus – também nordestino e alienado, mas que sonha em ser açougueiro e deputado.
Macabea vai a uma sortista que lhe prevê um futuro de estrela de cinema e casamento com um nobre alemão. Ao sair da casa da sortista, é atropelada por um Mercedes Bens luxuoso. é a hora da estrela.
O fragmento a seguir, mostra um “diálogo” entre Olímpico e Macabea. Um “diálogo” desprovido de significado nas palavras de Maca e vazio de conhecimento nas palavras de Olímpico (também a presença do narrador Rodrigo S.M., insinuando-se):
As poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne-de-sol, carne-seca, rapadura, melado. Pois esse era o passado de ambos e eles esqueciam o amargor da infância porque esta, já que passou, é sempre acredoce e dá até nostalgia. Pareciam por demais irmãos, coisa que – só agora estou percebendo – não dá pra casar. Mas eu não sei se eles sabiam disso. Casariam ou não? Ainda não sei, só sei que eram de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão. Não, menti, agora vi tudo: ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si, a dura semente do mal, gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais vida do que ela que não tinha anjo de guarda. Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por enquanto nada acontecia, os dois não sabiam inventar acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus. Ele: - Pois é. Em pequena ela vira uma casa pintada de rosa e branco com um quintal
onde havia um poço com cacimba e tudo. Era bom olhar para dentro.
Então seu ideal se transformara nisso: em vir a ter um poço
só para ela. Mas não sabia como fazer e então perguntou
a Olímpico:
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