Biografias > João Guimarães Rosa
Guimarães Rosa nasceu em 1908, na cidade de Cordisburgo, no centro-norte de Minas Gerais e viveu uma infância em meio a campos e a gado – seu pai era pecuarista. Formou-se médico e exerceu a profissão também no interior de Minas Gerais, onde se mostrou sempre interessado em plantas, bois, sertanejos e na fala do homem do interior. Em 1934 ingressou na carreira diplomática e, nessa função, trabalhou na Alemanha, na Colômbia e na França. Faleceu em 1967.
Principais Obras
- Sagarana (1946 – contos)
- Ave, Palavra (1970 – contos)
- Corpo de Baile (1956 – novelas: Manuelzão de Miguelim, No Urubuquaquá, no
Pinhém, Noites do Sertão)
- Grande Sertão: Veredas (1956 – romance)
- Primeiras Estórias (1962 – contos)
- Tutaméia – Terceiras Estórias (1967 – contos)
- Estas Estórias (1969 – contos)
A ficção de Guimarães Rosa, além de ter levado à categoria de objeto estético um território geográfico quase esquecido – o sertão -, firmou-se como um marco importantíssimo na literatura contemporânea do Brasil, ao empregar uma linguagem totalmente inovadora na elaboração do seu único romance e dos seus contos.
A linguagem singular e inovadora é uma recriação da fala do sertanejo. Guimarães Rosa, que falava fluentemente vários idiomas, deu a essa fala nova estrutura sintática e misturou-lhe novas palavras (neologismo). A tal ponto chegou essa recriação da linguagem que é possível afirmar-se que o autor inventou um dialeto ou uma nova língua, grande é o emprego de arcaísmos, onomatopéias, inversões sintáticas, justaposição e aglutinação de radicais, ritmos, cadências e aliterações. Observa-se, como exemplo, o início de Grade Sertão: Veredas.
- Nonada.
Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.
Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego.
Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.
Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso,
os olhos de nem ser-se viu; e com máscara de cachorro. Me disseram;
eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado
de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara
de cão; determinaram – era o demo. Povo prascóvio.
Mataram. Dono dele nem sei quem foi. Vieram emprestar minhas armas, cedi.
Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando
é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente
– depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere,
isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado
sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem,
fim do rumo, terras altas, demais do Urucúia. Para os de Corinto
e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão?
Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos
carecem de fechos; onde um pode torar dez, quize léguas, sem topar
com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado
de arrocho de autoridade. O Urucúia vem dos montões oestes.
Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões
de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas
que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda
virgens dessas lá há. O gerais corre em volta.
Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer
aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão
de opiniães... O sertão está em toda a parte. |
Sagarana (saga: estória; rana: parecido com) são nove contos (estórias) em que o autor tematiza o bem e o mal, os pequenos e os grandes dramas do sertanejo, a perseguição e a procura, o abandono, as brigas e desencontros por questões de amor, a humanização de bichos e plantas, a mitologia das pessoas do interior.
Entre esses contos, destaca-se o O Burrinho Pedrês, narrativa na qual, o velho e imprestável burrinho Sete-de-Ouros é elevado à categoria de herói quando, ajudando os vaqueiros a conduzir uma boiada, salva da morte os dois vaqueiros mais fracos. A linguagem, aqui, é carregada de ritmos, de jogo de palavras, de cadências, de trabalho sonoro e poético com a prosa.
Observe o fragmento a seguir:
Apuram o passo, por entre campinas ricas, onde pastam ou ruminam outros mil e mais bois. Mas os vaqueiros não esmorecem nos eias e cantigas, porque a boiada ainda tem passagens inquietantes: alarga-se e recomprime-se, sem motivo, e mesmo dentro da multidão movediça há giros estranhos, que não os deslocamentos normais disputam a colocação na vanguarda, outros procuram o centro, e muitos se deixam levar, empurrados, sobrenadando quase, com os mais fracos rolando para os lados e os mais pesados tardando para trás, no coice da procissão. Eh, boi lá!... Eh-ê-ê-ê-eh, boi!... Tou! Tou! Tou!... As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guapas, estrondos e baques, o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão... “Um boi preto, um boi pintado, Boi bem brabo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança dôido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando... “Todo passarinh’ do mato |
Outro conto que se destaca, em Sagarana, é A Hora e a Vez de Augusto Matraga. Nessa estória, Nhô Augusto, um fazendeiro decadente e mau, é emboscado por um grupo de jagunços que lhe aplicam uma tremenda surra e, dando-o como morto, jogam-no em uma ribanceira. Nhô Augusto, inteiramente ferido e coberto de folhas, é encontrado por um casal de negros que o levam para casa e tratam seus ferimentos. Durante o lento tempo de recuperação, Augusto Esteves passa por um processo de transformação espiritual e jura que jamais fará o mal a quem quer que seja. Recuperado, ajuda o casal de negros e os sertanejos da pequena aldeia escondida no sertão de Minas Gerais. Tempos depois, empreende uma viagem e encontra um grupo de jagunços liderados por Joãozinho Bem-Bem, que pretendia matar um menino cujo pai, foragido, havia assassinado um dos jagunços do grupo. Augusto Esteves, para salvar o menino, luta com Joãozinho Bem-Bem e ambos morrem. Morre, assim, o herói Augusto Matraga cumprindo sua promessa de jamais praticar o mal.
Esse conto, como outros, tematiza o “bem x o mal”, aliás uma dicotomia que marca a condição humana. O herói é apresentado, ao longo da narrativa, com três nomes – Nhô Augusto, Augusto Esteves e Augusto Matraga – evidenciando as três fases por que passou o personagem: maldade, arrependimento e penitência e bondade.
Fragmento:
Agora, parado o pranto, a tristeza tomou conta de Nhô Augusto. Uma tristeza mansa, com muita saudade da mulher e da filha, e com um dó imenso de si mesmo. Tudo perdido! O resto, ainda podia... Mas, ter a sua família, direito, outra vez, nunca. Nem a filha... Para sempre... E era como se tivesse caído num fundo de abismo, em outro mundo distante. E ele teve uma vontade virgem, uma precisão de contar a sua desgraça, de repassar as misérias da sua vida. Mas mordeu a fala e não desabafou. Também não rezou. Porém a luzinha da candeia era o pavio, a tremer, com brilhos bonitos no poço de azeite, contando histórias da infância de Nhô Augusto, histórias mal lembradas, mas todas de bom e bonito final. Fechou os olhos, suas mãos, uma na outra, estavam frias. Deu-se ao cansaço. Dormiu. E desse modo ele se doeu no enxergão, muitos meses, porque os ossos tomavam tempo para se ajuntar, e a fratura exposta criara bicheira. Mas os pretos cuidavam muito dele, não arrefecendo na dedicação. - Se eu pudesse ao menos ter absolvição dos meus pecados!... Então eles trouxeram, uma noite, muito à escondida, o padre, que o confessou e conversou com ele, muito tempo, dando-lhe conselhos que o faziam chorar. - Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado mortal?! - Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea.
E não tira o estribo do pé de arrependido nenhum... |
Grande Sertão: Veredas é a obra de Guimarães Rosa, romance que é a fala de Riobaldo, ex-jagunço do norte de Minas Gerais. Riobaldo agora é fazendeiro e barqueiro no Rio São Francisco e conta a um doutor, que ali chegara de jipe, a sua vida passada. À medida que narra os casos de vingança, de perseguições e de lutas pelo sertão, Riobaldo vai refletindo sobre os problemas advindos dessas ações. O narrador preocupa-se sempre com o seguinte: saber se o demônio existe ou não. Pretende que não, pois, se o diabo existe, sua alma está partida, pois, na juventude, fizera um pacto com o diabo para vencer o jagunço Hermógenes.
A par dessas questões, há os casos amorosos de Riobaldo, principalmente sua paixão pelo jovem jagunço Reinaldo, conhecido por Diadorim, filho do chefe Joca Ramiro. Essa paixão era o grande drama de Riobaldo, uma vez que Diadorim era um homem e, segundo o código de moral do jagunço, homem não ama homem, tornando impossível a paixão. O chefe é morto por Hermógenes, o jagunço do mal protegido pelo demônio e, posteriormente, Diadorim vinga-se do pai, matando Hermógenes, mas também acaba sendo morto. Quando o corpo de Diadorim foi despido para receber a roupa de enterro, viu-se que era uma mulher, porém criado para agir como homem. Riobaldo, surpreendido com essa descoberta e decepcionado pela morte do seu amor, torna-se barqueiro do Rio São Francisco.
Observe a seguir o final da narrativa:
Sufoquei, numa estrangulação de dó. Constante o que a Mulher disse: carecia de se lavar e vestir o corpo. Piedade, como que ela mesma, embebendo toalha, limpou as faces de Diadorim, casca de tão grosso sangue, repisado. E a beleza dele permanecia, só permanecia, mais impossivelmente. Mesmo como jazendo assim, nesse pó de palidez, feito a coisa e máscara, sem gota nenhuma. Os olhos dele ficados para a gente ver. A cara economizada, a boca secada. Os cabelos com marca de duráveis... Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim... Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse... Diadorim – nu de tudo. E ela disse: - “A Deus dada. Pobrezinha...” E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: - mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d’arma, de coronha... Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era uma mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero. O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real. Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhara os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: - “Meu Amor”...” Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo. A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou – ah! – a pedra-de-ametista, tanto trazida... O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral! Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristâmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro e quis: - “Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba...” Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão. Ela tinha amor em mim. E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi. Aqui a estória se acabou. |
Em Guimarães Rosa, o sertão é o mundo. Ora ele é mágico, mítico, medieval e particular; ora é universal e infinito ou, ainda, “o sertão é dentro da gente”. Por isso, pode-se afirmar que o autor fez uma literatura regionalista (afinal, o sertão é Minas Gerais), universalizando-a. Daí o que se costuma dizer da obra de Guimarães Rosa – regionalismo universal. Os dramas humanos e os questionamentos pessoais de Riobaldo e de outras personagens, a luta entre o bem e o mal, as dúvidas a respeito de Deus, do diabo, do amor, do existir, dos mitos são comuns a quaisquer seres humanos de qualquer parte do globo terrestre.