Escolas Literárias > Realismo (1881)

Virgília? Mas não era a mesma senhora de alguns anos depois? ... A mesma; era justamente a senhora que em 1869 devia assistir aos meus últimos dias e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza entre as mocinhas de seu tempo, porque isto não é um romance em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda, não.

Esse texto é um fragmento do capítulo XXVII do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicado no Rio de Janeiro em 1881. Trata-se do primeiro romance do Realismo no Brasil. Se você comparar esse fragmento com aquele em que José de Alencar descreve Iracema, perceberá claramente a diferença básica entre um texto romântico e um realista: naquele texto, José de Alencar idealiza completamente a beleza da índia Iracema, pintando-a com cores da bela natureza brasileira; neste texto, Machado de Assis mostra que virgília era uma moça comum, inclusive o autor afirma o leitor que "isto não é um romance em que o autor sobredoura (pinta de ouro) a realidade". Se no Romantismo o autor colocava maquilagem na realidade, no Realismo, o autor a registrava realmente como era.

Como surgiu o Realismo? Grandes descobertas científicas, principalmente no campo da Biologia, da Medicina e da Física, produziram mudanças gritantes na sociologia e na filosofia do século XIX na Europa. Por exemplo: Charles Darwin (1809-1882) publicou, em 1859, o livro Origem das Espécies, em que expôs as sua pesquisas sobre a Teoria da Evolução Natural (darwinismo), segundo a qual a Natureza ou o meio determinam, entre os seres vivos, as variações das espécies que estão destinadas a sobreviver; Gregor Mendel (1822-1884) descobriu a lei da hereditariedade; Theodor Schwann (1810-1882) demonstrou que não só os animais mas também as plantas se compõem de células; Ernest Haeckel (1834-1919) provou o transformismo biológico; Louis Pasteur (1822-1895) lançou as bases da ciência bacteriológica. Houve, na Física, muitos inventos tecnológicos, como a máquina a vapor e a máquina fotográfica.

A filosofia dessa época foi toda influenciada pela ciência. Auguste Comte (1798-1857) fundou o Positivismo para mostrar que tudo na vida e na Natureza tem um explicação científica e que tudo tem um causa e uma conseqüência; Herbert Spencer (1820-1893) criou a Teoria Evolucionista, o determinismo, provada por Charles Darwin; Hipolyte Taine (1828-1893), continuando as idéias deterministas, afirmou qu o homem é produto da raça que o origina, do momento histórico em que está inserido e do meio em que vive; Friedrich Nietzsche (1844-1901) defendeu a constante eliminação dos incapazes acabaria por produzir um raça de super-homens; Ceasar Lambroso (1836-1909) provou que o criminoso é um doente cujas características de crime são hereditárias; Karl Marx (1818-1883) publicou O Capital, no qual expôs os princípios do materialismo histórico e dialético, a questão da luta de classes e da mais-valia. Marx acreditava que o poder passaria das mãos dos capitalistas industriais para as mãos dos trabalhadores. Suas idéias inspiraram os movimentos e governos comunistas no mundo todo durante o século XX.

Essas descobertas e essas mudanças foram acompanhadas da industrialização rápida e do inchamento das cidades européias, causando grandes e graves problemas sociais; negava-se e existência de Deus e ridicularizavam-se as crenças religiosas.

Nesse clima de muitas mudanças no pensamento humano, foi publicado, em 1850, o romance Madame Bovary, do francês Gustave Flaubert, que retratava a visão que esse escritor tinhas dessas mudanças e de sua influência nas pessoas. Flaubert refletiu sobre a impossibilidade da concretização de fantasias sentimentais naquele mundo, colocando Ema em um colégio da burguesia européia, onde ela recebeu a educação de uma elite educacional que vivia fora da realidade de seu tempo. Lá ela fantasiou a felicidade apregoada nos muitos romances românticos que leu. Ao casar com o médico do interior Carlos Bovary, Ema econtrou uma realidade completamente adversa da que ela vivera no colégio e lera nos romances. Ema Bovary tornou-se infeliz, praticou adultério, tentando encontrar a felicidade sonhada, e, por sim, amargurada, suicidou-se.

O romance Madame Bovary, mostra que a realidade é muito mais forte que as fantasias de vida que alguém possa ter e critica, acidamente, os ideais e os pseudo-valores difundidos pelo Romantismo.

No Brasil, a literatura realista predominou de 1880 até 1910. Caracterizou-se pela clara negação dos ideais românticos dominantes e suas características estão presentes, pricipalmente, na obra de: Machado de Assis (Realismo propriamente dito), Aluísio Azevedo (Naturalismo), Olavo Bilac (Parnasianismo), Raul Pompéia (Impressionismo) e em autores do Pré-Modernismo, como Euclides da Cunha.

Históricamente, considera-se o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicado em folhetim em 1880 e editado em 1881, como a obra inicial do Realismo no Brasil.

Características do Realismo

As características do Realismo se confundem, em parte, com a obra realista de Machado de Assis e são, genericamente, as apresentadas a seguir.

Objetividade e racionalismo

Investigação objetiva da realidade, negação da fantasia, do sentimento e da imaginação exagerados. Machado de Assis, por exemplo, negava a emoção nos seus personagens. Quando ela ocorria, era para caracterizar a falsidade e a alienação deles.

Contemporaneidade

O que vale, para o realista, é o presente. Se, por ventura, ele uso o passado, é simplesmente para explicar o presente e não para refugiar-se nele. Afirma-se que os romances realistas eram romances de tese, porque procuravam documentar a realidade.

Verossimilhança

Se o que se conta não é verdade, poderia ser verdade. Arroubos, milagres, religiosidade, transcendências, qudno ocorrem na narrativa, são periféricos, isto é, não são essenciais no desenvolvimento das ações.

Desmistificação

Os românticos foram criadores de mitos, de heróis e heroínas. Por exemplo: a heroína romântica é bela, casta, virtuosa, sonhadora e fiel ao homem que ama; os realistas desmistificaram essa mulher tornando-a falsa, dissimulada e adúltera. A nação mestiça do romântico José de Alencar era uma verdadeira ilha da utopia de tão grandiloqüente e bela; já o Brasil pintado por Machado de Assis não passava de um país corruptos culturalmente subdesenvolvidos.

Tipificação Social

As ações, as falas, os gestos e os conflitos dos personagens são representações do grupo social a que pertencem. No conto "Missa do Galo", Machado de Assis descreve Conceição como um mulher que não é feia nem bonita, nem gorda nem magra, estatura mediana, moralista e incapaz de dizer mal de alguém. Mesmo assim, era traída pelo marido Meneses, que passava uma noite por semana na casa da amante. Na noite de Natal daquele ano, quando todos dormiam na casa e o marido estava ausente (encontrava-se junto da amante), Conceição entra na sala de frente da sua casa e tenta seduzir Nogueira, um ingênua rapaz de 17 anos que morava na casa dela e que esperava um amigo com o qual deveria ir à missa do galo. Por que Conceição, uma esposa tão recatada tentou seduzir Nogueira? Uma mulher carente, abandonada, solitária e traída pelo marido tinha ou não motivos para trair? Ora, na cidade em que você mora, quantas Conceições devem existir?

Critica

Toda obra realista tem por objetivo retratar a sociedade. Assim, os valores burgueses, o casamento, a amizade, as relações humanas, tais como se apresentavam, eram criticados.

Detalhismo

Os realistas, nos seus textos, privilegiavam a narração lenta e a descriação detalhada de ambientes, de ações e de personagens. Machado de Assis, em Dom Casmurro, faz com que Bentinho construa toda a suspeita de que sua amada Capitu o traía a partir de gestos, de olhares, de atitudes e de palavras de Capitu, privilegiando o detalhe na construção do personagem.

Temas realistas

O parasitismo social, o fracasso permeando a vida dos indivíduos, o adultério, o egoísmo, a vaidade, a hipocrisia, o interesse, os conflitos interiores do ser humano, as crises nas instituições, como a Igreja, o Estado, o casamento e a família.