Escolas Literárias > Simbolismo (1893)
O poeta negro catarinense Cruz e Sousa escreve a sua profissão de fé no Simbolismo ao redigir o poema “Antífona” que é um velho vocábulo usado na liturgia (cerimonial) católica. Antífona é o nome da primeira oração rezada pelo padre na missa e significa preparação; aliás, o vocabulário litúrgico, bíblico e esotérico permeia, de modo geral, os poemas simbolistas.
As seis estrofes seguintes pertencem ao poema Antífona.
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras De luares, de neves, de neblinas! ... Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas ... Incensos dos turíbulos das aras ... |
O poeta defende um texto cuja forma expresse brancuras, vaguidade, volatidade e misticismo.
Formas do Amor, constelarmente puras, de Virgens e de Santas vaporosas ... Brilhos errantes, mádidas frescruras E dolências de lírios e de rosas ... |
O poema deve ter metáforas singulares, emprego de letras maiúsculas no meio do verso para valorizar o vocábulo.
Indefiníveis músicas supremas, harmonias da Cor e do Perfume ... Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume ... |
Não existe poesia simbolista sem musicalidade e sinestesia (vocábulos que tenho sentido de cor, de cheiro, de gosto, enfim, de sensações).
Visões, salmos e cânticos serenos, surdinas de órgãos flébeis, soluçantes ... Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos radiantes ... |
Novamente o vocabulário litúrgico, a música e a sinestesia. Dormência é o estado simbolista: nem acordado nem dormindo, mas dormente
Infinitos espíritos dispersos, Inefáveis, edênicos, aéreos, Fecundai o mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios. |
Espiritualidade, mistério, diafaneidade como presença constante nos poemas.
Tudo! Vivo e nervoso e quente e forte, nos turbilhões quiméricos do Sonho, passe, cantando, ante o perfil medonho e o tropel cabalístico da Morte ... |
De novo a sinestesia. Agora a presença do sonho e a referência ao misticismo da Cabala, que é uma ciência esotérica da Idade Média.
O poema Antífona é longo e a reprodução desses versos visa evidenciar as principais características do Simbolismo que são, genericamente, apresentadas a seguir.
Forma
- Não se descreve um objeto; sugere-se a existência dele.
- Emprego de letras maiúsculas no verso para valorizar o vocabulário.
- Uso de um vocabulário bíblico, litúrgico, esotérico e arcaico no sentido de revitaliza-lo.
- Musicalidade: não se trata de poema com fundo musical, mas poema com musicalidade em si mesmo no manejo de cadências, de ritmos, de combinações de sons, de repetição de fonemas para os quais se usavam técnicas de composição como a aliteração e a assonância.
- A imprecisão no sentido de certos vocábulos para caracterizar o mistério e o indizível.
- Como você pode notar nos versos de Antífona, Cruz e Sousa dá bastante importância às frases nominais, isto é, às frases em que não existem verbos.
- Embora tenham dado importância ao verso livre, os simbolistas ainda estavam presos a poemas bem elaborados formalmente, como os parnasianos.
Conteúdo
- Religiosidade, misticismo, espiritualismo, esoterismo.
- Expressão de estados de alma profundos e complexos
- Sonho; não o sonho sentimental dos românticos, mas os sonhos mais escondidos do ser humano.
- Presença do inconsciente e do subconsciente
O Simbolismo nasceu quando escritores passaram a considerar que o Positivismo de Augusto Comte e o demasiado uso da ciência e o ateísmo (procedimentos do Realismo) não conseguiam expressar completamente o que acontecia com o homem e a natureza. Esses escritores negavam a realidade como a explicação de tudo e voltaram-se para o misticismo e a espiritualidade a fim de tentar ver o ser humano de outra perspectiva.
A França foi o berço do Simbolismo que se manifestou no satanismo e no “spleen” de “As Flores do Mal” do poeta Charles Baudelaire; no mistério e na destruição da linguagem linear de “Um lance de Dados” e de “Tardes de um Fauno” (poemas dificílimos de serem entendidos), de Stéphane Mallarmé; no marginalismo de “Outrora e Agora”, de Paul Verlaine e ainda no amoralismo de “Uma temporada no Inferno”, de Jean Nicolas Rimbaud.
No Brasil, o Simbolismo foi um literatura de província na medida em que esse estilo literário apareceu nos poemas de jovens poetas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de Minas Gerais. O poeta parnasiano Olavo Bilac, decano da poesia brasileira do século XIX, ao ler a primeiras produções simbolistas publicadas na capital da República, apelidou os poetas provincianos de “nefelibatas” (quem vive nas nuvens), querendo dizer, certamente, que os simbolistas eram poetas que viviam fora da realidade. Ora, na Europa, o Simbolismo se sobrepôs ao Parnasianismo mas, no Brasil, ocorreu o contrário, tornando-se um movimento marginal, sem acesso a jornais e revistas, veículos que eram dominados pelos parnasianos. Por isso, o Simbolismo não teve a repercussão devida junto ao público e à crítica da época.
Missal (poemas em prosa) e Broqueis (poesia), de Cruz e Sousa, publicados em 1893, foram as obras iniciais do Simbolismo no Brasil.

