Resumo de Livros > Libertinagem
Autor: Manuel Banderia
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Os poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais cotidianos, mais comuns, dos momentos que aparentemente sâo banais e insignificantes. Do dia-a-dia mais desapercebido desentranha sua poesia, em que instantes da existência aparecem transfigurados em pura essencialidade da vida.
Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se instantes de iluminação, instantes de transcendência e de proximidade da essência mais profunda e mais simples — da vida. O grande milagre da existência, a mais cotidiana, que a consciência da morte revelará como algo intenso, único, irrepetível.
Sua linguagem coloquial e despojada atinge alguns dos momentos mais expressivos da língua: grande intensidade, grande condensação, com imensa simplicidade. Ao lado de Carlos Drummond, Bandeira é o grande incorporador do prosaico e do coloquial na poesia brasileira moderna.
Pneumotórax Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. Mandou chamar o médico: - O senhor tem uma escavação no pulmão
esquerdo e o pulmão direito infiltrado. |
Um dos mais conhecidos textos de Bandeira e de todo o Modernismo. O tema é claramente autobiográfico. Observe o tom coloquial e irônico, quebrado por uma frase-síntese de grande intensidade (segundo verso) e pelo final inesperado, desconcertante, do humor absurdo diante da morte sem remédio, final típico de poema-piada característico da poesia moderna.
Poética Estou farto do lirismo comedido Estou farto do lirismo namorador |
Este texto equivale a um manifesto modernista. Metapoema, poesia que fala de poesia. Observe que ele apresenta negações e rupturas — contra as convenções que desfiguram a criação poética, em especial as do academicismo parnasiano — e apresenta, por outro lado, afirmações Iibertárias típicas da luta modernista (particularmente no final do poema). Observe o úItimo verso, frase-síntese, verdadeiro slogan do momento heróico do Modernismo.
Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada E quando eu estiver mais triste |
Texto-sintese da poesia de Bandeira, tanto de sua linguagem como de sua temática da vida que podia ter sido, que precisava ter sido — e que não foi. Observe a enumeração livre dos elementos que compõem Pasárgada — lugar ideal, lugar de sonhos, lugar de desejos, onde a vida é o que deveria ser. Na segunda estrofe, observe a enumeração caótica, sem seqüência lógica, dos elementos. Observe também a extrema simplicidade da linguagem, junto da mais intensa expressividade.
Consoada Quando a indesejada das gentes chegar |
Um dos mais conhecidos poemas com o tema da morte. Observe o tom sereno, familiar, camarada. Consoada, a ceia de fim de ano, no texto representa encontro simbólico com a morte. O poema apresenta um balanço do vivido, sem ilusões quanto à própria finitude, e não se desfigura diante da presença indesejada pelas gentes. O dia ti bom, com cada coisa em seu lugar. Observe também, tal como nos outros textos, a linguagem coloquial, a estrófica irregular, heterogênea, o verso livre.


